Regionalismos, fazer o quê?

A língua portuguesa sofreu diferentes influências culturais ao longo dos séculos em cada região, incorporando diferentes formas de expressão, dando origem a diferentes dialetos, diferentes modos de expressar ou representar uma mesma ideia ou um mesmo sentimento ou conceito. Isto é explicado já que nossas principais culturas, em termos de regionalismo refletem, ora as várias culturas europeias, ora a cultura africana ou a cultura indígena, ou até mesmo a mistura delas. Pelo fato de a povoação do Brasil ter ocorrido em regiões distintas e distantes entre si (litoral nordestino, litoral fluminense e interior mineiro, por exemplo), o traço cultural de cada região influenciou o próprio desenvolvimento idiomático do português, ao longo do tempo.
No século XIX, surgem escritores voltados à produção de obras saudosistas, que se propõem a realizar uma retomada romântica do Brasil dos séculos XVI, XVII e XVIII.
Assim, costuma-se estudar o regionalismo a partir dos romances coloniais de José de Alencar e das poesias indianistas de Gonçalves Dias, que no século XIX nascem daquela aspiração patriótica de fundar a nobreza do país em um passado mítico, estando muito presente o conceito de cor local nas obras. Esta aspiração põe o regional acima do nacional, e esta pode ser a definição mais simples e eficiente a respeito do que vem a ser o sentimento regionalista. São obras simbólicas dessa época O Gaúcho e O Sertanejo, ambas de José de Alencar.
No começo do século XX a matéria rural voltou a ser tomada a sério, assumida nos seus precisos contornos físicos e sociais dentro de uma concepção mimética de prosa. É o caso do regionalismo de Valdomiro Silveira e de Simões Lopes Neto, que resultou de um aproveitamento literário das matrizes regionais.
Simões Lopes Neto chega a transpor para o português escrito a linguagem própria do gaúcho, com termos castelhanos e expressões características. Algo muito semelhante fazem os Modernistas, ao buscar no interior do país a síntese do próprio Brasil. Macunaíma, de Mário de Andrade, também transpõe a linguagem do brasileiro – no caso, do nortista e do nordestino – com termos indígenas e expressões populares.
Mais tarde, em Guimarães Rosa, o regionalismo sofre uma metamorfose que o trará de novo ao cerne da ficção brasileira. É a permanência e transformação do regionalismo no Romance de 30, de escritores como o baiano Jorge Amado, o gaúcho Erico Verissimo, o paraibano José Lins do Rego e o alagoano Graciliano Ramos. Aqui, o autor realista descreve sua terra e sua gente não com exaltação, mas de maneira mais centrada e reflexiva, numa tentativa de compreender o momento presente, as desigualdades sociais, a formação da elite etc.
Esta é, aliás, a grande diferença entre o regionalismo visto pelos românticos e o regionalismo ressaltado pelo Realismo. No primeiro havia um sentimento de idealização, de caráter otimista, de exotismo, ao passo que no segundo investiga-se o humano em suas relações com o meio, com a linguagem, a paisagem e a cultura de uma determinada região. A questão idiomática aqui é tratada com a naturalidade indispensável ao entendimento e que, de fato, traduz uma verdade linguística. Entendendo-se a língua como alguma coisa dinâmica, o oxente de Suassuna, por exemplo, é componente do idioma e só acrescenta valor à língua. E o mais importante: não diminue quem usa.

Vale a pena refletir sobre isso.


Apparício Torelli


O pai do humorismo brasileiro

“Adolescência é a idade em que o garoto se recusa a acreditar
que um dia ficará chato como o pai.” 

Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, também conhecido por Apporelly e pelo falso título de nobreza de Barão de Itararé (RS 29/01/1885 - RJ 27/11/1971) foi jornalista, escritor, sendo o pioneiro no humorismo político brasileiro.

Aos 33 anos sofreu um AVC; largou a Faculdade de Medicina e começou a escrever.

Com os jornais A Manha e Almanhaque, ele ironizou as elites, criticou a exploração e enfrentou os governos autoritários. Preso várias vezes, ele nunca perdeu o seu humor. Itararé é o nome da batalha que não houve entre a oligarquia e as forças vitoriosas na revolução de 1930.

Nessa ocasião, quando Getúlio Vargas partiu de trem rumo à capital federal, então o Rio de Janeiro, propagou-se pela imprensa que haveria uma batalha sangrenta em Itararé. Isto, foi vastamente divulgado na imprensa. Apporelly não ficou de fora desta tendência. Esta batalha ocorreria entre as tropas fiéis a Washington Luís e as da Aliança Liberal  que, sob o comando deGetúlio, vinham do Rio Grande do Sul em direção ao Rio de Janeiro para tomar o poder. A cidade de Itararé fica na divisa de São Paulo com o Paraná, mas antes que houvesse a batalha "mais sangrenta da América do Sul", fizeram acordos. Uma junta governativa assumia o poder no Rio de Janeiro e não aconteceu nenhum conflito. O Barão de Itararé comentaria este fato mais tarde da seguinte maneira:

"Fizeram acordos. O Bergamini pulou em cima da prefeitura do Rio, outro companheiro que nem revolucionário era ficou com os Correios e Telégrafos, outros patriotas menores foram "exercer o seu patriotismo" em cargos de mando e desmando… e eu fiquei chupando o dedo. Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Se eu fosse esperar que alguém me reconhecesse o mérito, não arranjava nada. Então me proclamei Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve."

Na verdade, em outubro de 1930, Apparício se autodeclarara Duque nas páginas d"A Manha":

"O Brasil é muito grande para tão poucos duques. Nós temos o quê por aqui? O Duque Amorim, que é um dançarino, que dança muito bem mas não briga e o Duque de Caxias que briga muito bem, mas não dança. E agora eu, que brigo e danço conforme a música."
Mas como ele próprio anunciara semanas depois, "como prova de modéstia, passei a Barão."

Frasista genial, ele cunhou incontáveis pérolas. Cansado de apanhar da polícia secreta do Estado Novo, colocou na porta do seu escritório uma placa com a hoje famosa frase “entre sem bater”. Político sagaz, ele percebeu a guinada progressista de Getúlio Vargas e respondeu aos críticos udenistas: “Não é triste mudar de ideias; triste é não ter ideias para mudar”. Apparício foi eleito vereador pelo Rio de Janeiro em 1946 com o lema “mais leite, mais água e menos água no leite” – denunciando fraudes da indústria leiteira.

Seu mandato foi combativo e irreverente. Segundo o então senador Luiz Carlos Prestes, “o Barão não só fez a Câmara rir, como as lavadeiras e os trabalhadores. As favelas suspendiam as novelas para ouvir as sessões que eram transmitidas pela rádio”. Ele teve o mandato cassado em 1947, e declarou solenemente: “Eu saio da vida pública para entrar na privada”. O seu jornal, A Manha, foi novamente empastelado e, com dificuldades financeiras, escreveu: “Devo tanto que, se eu chamar alguém de ‘meu bem’, o banco toma”.

Barão de Itararé foi um crítico dos jornais golpistas de Assis Chateaubriand e Carlos Lacerda e um entusiasta da imprensa alternativa. Após o golpe de 1964, ele passou por várias privações, mas manteve a sua máxima: “Nunca desista de seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra”.

Edição do 1º Colegiado de Escritores Brasileiros, da Litteraria Academiae Lima Barreto



“Não confie no provérbio que diz que cão que ladra não morde; deve ter muito cão analfabeto por aí que ainda não leu este lindo provérbio.”

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"Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você."

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“Quando o queijo e a goiabada estão na mesa do pobre devemos desconfiar dos três; do queijo, da goiabada e do pobre.”

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"Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta..."